Sangue da Terra | Manifesto de Outono

2020. Vivemos mundialmente uma era de colapso urbano. Somos expostos à fragilidade de nosso modo de vida e, do alto dos edifícios, nos grandes aglomerados das grandes cidades, assistimos à implosão dos sistemas de saúde, dos sistemas socioeconômicos e, com eles uma desestruturação generalizada do pensamento, do agir e do sentir humanos. Somos obrigados a nos voltar para nossos interiores, pessoais e geográficos.  

A pandemia trouxe à tona muitas questões sobre nosso modo de vida. Nos arremessou forçadamente para o interior de nossas casas, nos convidando a um aprofundamento de nossa própria existência. De repente nos vemos sem o parapeito das distrações de nosso cotidiano alienante e somos lançados no abismo da solidão profunda, na vertigem da queda de todas as certezas. Somos levados ao isolamento e a uma realidade ancorada no presente, que espelha de maneira agressiva nossas sombras individuais e coletivas.

Em nossas casas, cercados de objetos que traduzem nossa história, dentro dessa topografia de nosso ser mais íntimo e nos diagramas da própria psiquê, somos obrigados a encarar nossas essências mais profundas, nossos valores existenciais — e o típico homem solitário em seu apartamento, falsamente conectado ao mundo por telas brilhantes, só se dá conta da solidão quando esse isolamento já não é mais escolha, mas sim imposição. Invariavelmente, isso nos faz refletir quão errônea é a nossa escolha – voluntária – por um isolamento social nos grandes centros.

O que vemos hoje é apenas um vislumbre de um colapso geral. É como se nosso corpo desse os primeiros sinais de uma doença grave antes de se degenerar completamente – pois, assim como organismos frágeis permitem a penetração da doença, sistemas frágeis também; e o mundo que construímos para nós é frágil. Mais correto seria dizer  ainda o mundo que desconstruímos, o mundo que fragmentamos, o mundo que destruímos para nós mesmos. Nossos sistemas imunes estão tão fragilizados quanto nossos solos, e nossas microbiotas, externa e interna, cimentadas pelo cinza da esterilidade industrial, urbana, científica, prática e utilitarista da própria vida. Essa fragilidade física e intelectual nos deixa vulneráveis à inoculação de filosofias superficiais, religiões falsas e todas as doenças do espírito e do corpo.

Épocas assim nos fazem pensar em como falhamos na simples tarefa de nos manter saudáveis. Saúde não é apenas um não estar doente, e o homem urbano sem as facilidades do mesmo ambiente urbano é débil, não sobrevivendo física ou psicologicamente a uma quebra do sistema vigente. Nos esquecemos das forças primárias  e vitais que nos impelem a seguir adiante, conectados uns com os outros e com a própria natureza: estamos  tão doentes quanto o planeta e não sabemos mais onde nos escorar neste mar de faltas, de abismos, de esterilidades e  artificialidades.

Convivam com suas famílias, convivam com seus vizinhos, convivam consigo mesmos, voltem-se para seus os interiores – parece nos dizer o nosso próprio tempo. O olhar para o outro e para si mesmo com mais empatia e afinidade nos parece inevitável e próprio de tempos de crises.

Nessas circunstâncias, é impossível não pensar que estruturas físicas e sociais que sobrevivem a um colapso geral do sistema são justamente aquelas que se voltam para dentro. Homens e comunidades que ainda têm fortalecidas suas essências, suas tradições médicas e alimentares, seu convívio e relação com o próximo, com o solo, com a terra, com elas mesmas.

Homens e comunidades que respeitam a lentidão e o silêncio sabem ouvir “as vozes dos antepassados”, através de uma relação mais aberta e profunda com suas raízes culturais e tradições, configurando modos de vida mais humanos, mais equilibrados, saudáveis e sólidos – e considerados, na maior parte das vezes, modos de vida primitivos, ultrapassados ou não desenvolvidos. Mas essa capacidade motora, cognitiva e cultural de extrair do mundo aquilo de que necessitamos para a manutenção biológica da espécie – porém, em harmonia com ele –  é o resultado de milhares de anos de acúmulo de nossas experiências como  humanidade.

É inegável que o modo de vida moderno nos tenha levado a essa percepção de mundo baseada na superficialidade e na fragmentação, numa constante racionalização do mundo através do apenas visível aos nossos olhos. Nós confinamos vacas  a fazendas e confinamos arte a museus. Confinamos pessoas em apartamentos e literatura em bibliotecas. A ciência e o pensamento que dominou todo o século XX afetou não só a paisagem, mas nossa maneira de observá-la, e o que chamamos de racional ou pensamento científico abstrai da experiência e dos fenômenos da natureza seu caráter de unidade. Nosso olhar é a do observador distante desconectado do entorno e, portanto, dele mesmo. A fragmentação de nossa visão, de nosso entendimento, de nossos relacionamentos, refletem essa redução a partes que o pensamento e a estética modernos nos impuseram. A própria percepção do mundo através do ‘apenas visível’ demonstra isso, embora seja absolutamente necessária uma abertura de todos os nossos canais de conexão, e não apenas da visão, para uma real compreensão da existência humana.

Segundo a medicina chinesa, o Outono representa um momento de interiorização das energias, de preservação e de estocagem, quando todas as coisas vivas estão naturalmente maduras e prontas para a colheita. É o momento de isolar-se, restringindo o espírito e a energia internamente, protegendo a mente contra a ansiedade e a impetuosidade. Se esses princípios forem violados pelo homem, segundo essa mesma tradição, seu pulmão será ferido, revelando uma ‘inadequação em se oferecer ao armazenamento’, devido a sua incapacidade de adaptar-se à energia do outono.

Este talvez seja então o outono da nossa era. E este retorno aos nossos espaços de intimidade, à luz de nossos mundos vividos, faz emergir quase involuntariamente valores humanos dos espaços de posse, espaços defendidos contra forças adversas, espaços amados. Vemos surgir imagens que valorizam nossa maior potência como humanidade: a imaginação e a criatividade. Só habita com intensidade aquele que sabe se encolher.

Tal movimento para “dentro” nos confronta forçosamente com nossas essências e nossos instintos. Neste momento, como indivíduos abandonados à própria sorte, nos sentimos como animais vulneráveis e desprovidos de capacidades para reagir aos desafios impostos pelo ambiente. Mas, como um coletivo, como um sistema conceitual integrado, talvez esta seja uma oportunidade evolutiva de onde emergirão novos padrões de relacionamento entre nós mesmos e a natureza, através de laços de solidariedade.

Se analisarmos em uma escala global, a pandemia convoca a humanidade como um todo a repensar, refletir e projetar-se para um futuro incerto, sem as expectativas cunhadas pelos modos de vida conhecidos até então. Consequentemente, um envolvimento mais profundo com nossos “interiores” pode representar uma oportunidade evolutiva de fazerem emergir novos padrões cognitivos no sentido de uma recriação autorreguladora de nossa capacidade de adaptação às condições impostas pela natureza.

Nos submetemos ao longo dos séculos a uma dinâmica completamente fora do esquadro dos ritmos naturais, presos às amarras da pressa e da visão turvada e poluída da cultura citadina. Essa falta de adequação ao que nos é “natural” reverbera de maneira profunda na sociedade, no seu entendimento e na sua saúde como um todo. Sendo assim, talvez devêssemos encarar a pandemia como um movimento natural de resposta da humanidade a ela mesma. É como se a natureza — da qual fazemos parte e como organismo vivo que é — desenvolvesse processos afastados do equilíbrio, culminando no ponto de instabilidade em que nos encontramos.

Pelo ponto de vista de Ilya Prigogine, fisico químico russo responsável pela teoria de estruturas dissipativas, na natureza esses processos afastados do equilíbrio são o ponto de emergência de novos padrões de organização, de novas “respostas” dos organismos aos desafios oferecidos pelo meio, fatores determinantes da evolução e da capacidade dos seres vivos de se recriarem a partir de novos níveis de complexidade, no sentido de adaptarem-se às novas condições.

Como organismos, somos sistemas cognitivos sensíveis às mudanças do meio, nos quais a criatividade atua a partir da relevância de nossas experiências anteriores e da imprevisibilidade do futuro. Nos vemos agora em um ponto — deveras afastado do equilíbrio — onde os sistemas sociais e humanos devem dar um passo evolutivo para garantir a evolução e a própria sobrevivência como espécie.

Devemos, nos interiores de nosso ser e de nossas casas, nos propor a uma reavaliação dos valores atuais, fundados nos ideais fragmentários e higienistas que foram responsáveis pelo afastamento do homem em relação à natureza, vista como o “lá fora”. Não existe o “lá fora”, pois nós somos a própria natureza. Destruímos a vida de dentro de nossos corpos com alimentos industrializados e antibióticos, assim como destruímos a vida de nosso solo com fertilizantes sintéticos e pesticidas.

Esse desmembramento e fragmentação que o modo de vida moderno reforça promove também uma cisão ideológica e ética que nos polariza e impede de nos identificarmos como natureza ou como unidade – e dessa maneira nos dividimos na falsa trindade do eu, do outro e da natureza, limitando o surgimento de laços de solidariedade entre estes ou qualquer espírito de coerência e coesão.

Essa desconexão com nosso entorno, ou seja, com nós mesmos, fatalmente nos empurra para um latente sentimento de insatisfação, tão presente em nossa época. Jung diz que “é frequentemente a perda de relação com o passado, a perda das raízes, que cria um tal ‘mal-estar na civilização’  : e o que chamamos de raízes, de passado, de história, de tradições, de essências, nada mais é do que uma das partes perdidas – ou esquecidas – de nossa totalidade.

Vivemos, portanto, uma crise de valores que tem base na percepção da realidade. A perda de contato com o entorno ‘divino’, com o ‘lá fora’ se manifesta em enfermidades do corpo e do espírito, e configuram um “mau contato” de nosso  aparato físico com a natureza. É urgente e necessária uma nova estética de pensamento, uma remodelação de nossos próprios padrões cognitivos de ver e de pensar o mundo. A arte, nesse contexto, é uma maneira de nos “equipar” novamente com as ferramentas necessárias para que possamos entrar em contato com nossa capacidade inerente de nos relacionarmos com a natureza – da qual fazemos parte.