Luís Henrique Zanini | Era dos Ventos

Vinhateiro de ‘espírito vínico inquieto’, como ele mesmo se define, Zanini trabalha no setor faz 20 anos, muitos deles militando pela causa do produto artesanal e do vinho de pequeno produtor.
10/9/2020 Depoimentos; Vinhateiros

Vinhateiro de ‘espírito vínico inquieto’, como ele mesmo se define, Zanini trabalha no setor faz 20 anos, muitos deles militando pela causa do produto artesanal e do vinho de pequeno produtor. Faz parte de uma das primeiras iniciativas de vinho natural no país: a Era dos Ventos, em parceria com Álvaro Escher e Pedro Hermeto, e vinificam desde 2004 até hoje em um porão, na região de Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul.

A Era dos Ventos usa vinhedos próprios e não utiliza aditivos enológicos, apenas SO2 moderado no engarrafamento. Foram responsáveis pelo resgate da uva Peverella e pela disseminação dos vinhos brancos de maceração com as cascas ( os laranjas ou âmbar ) no país.

Zanini acompanhou de perto muitos dos problemas e politicagens relacionadas ao vinho, desde as salvaguardas ao selo fiscal. Sua entrevista foi feita no mesmo ano em que a Lei do Vinho Colonial entrou em vigor ( 2018 ), uma lei bastante falha que, ao invés de ajudar a maior parte dos vinhateiros, acaba dificultando a comercialização para empresas ou para fora da propriedade agrícola. Muitos vinhateiros acabam optando pela ilegalidade pois “apenas pagar impostos e não poder vender seu vinho” acaba não sendo muito atrativo.

Mas muito mais que política e legislações, Zanini fala de história, de poesia e de seres humanos.

“ Meu nome é Luís Henrique Zanini. Comecei a fazer vinho natural em 2001. Eu e meu colega Álvaro Escher elaboramos ainda em 2001 o primeiro vinho branco de maceração que se tem notícia no Brasil, a partir da ideia de se fazer testes opostos ao que aprendíamos na faculdade de Enologia. Nos diziam que deveríamos tirar as cascas durante a fermentação das uvas brancas o mais rapidamente possível. Contrariando a escola,  resolvemos macerar por dias e dias a uva Peverella, uma uva com potencial para este estilo de vinho, mas que estava em extinção no Brasil pelo desinteresse da indústria vinícola brasileira. 

Nunca concebi que o vinho fosse somente ciência, pois gosto de poesia. O vinho é livre, contém vida, e também poesia. Nós cultivamos os próprios vinhedos, com sistema de manejo orgânico, e vinificamos de maneira natural. O vinho natural é uma filosofia. O vinho deve ser elaborado como sempre foi feito, com a mínima intervenção possível. No momento que trabalhamos com vinho natural descortina-se um universo contrário ao que o sistema dita. 

Para mim trabalhar com vinho natural  é dar sentido a uma bebida que ao longo do tempo foi escravizada pelo marketing. É buscar o retorno, é resgatar a história e a cultura, e sobretudo é um movimento de resistência.

O vinho brasileiro é como o seu povo:  uma “miscigenação”. Aqui convivem grandes complexos industriais com pequenos artesões que fazem vinho em seus porões. Aqui existem milionários de outros setores que tratam o vinho como “investimento” ou commodities, mas existem centenas de  pequenos produtores familiares onde o vinho ainda faz parte de sua subsistência.  

Não há uma identidade clara de vinhos no Brasil, e a busca de Denominações de Origem (indicações geográficas) serve mais como uma ferramenta de marketing do que propriamente uma intenção de buscar uma identidade local. Acredito que isso não seja apenas um “privilégio” do Brasil. Muitos países novos e muitos países antigos no mundo do vinho sofrem por falta de uma verdadeira identidade, mascarada por anos de indústria. O Brasil é muito extenso e cada região busca a adaptação da vinha da melhor forma: obviamente todos os manejos são réplicas de manejos europeus ou do novo mundo. Não existe um manejo agrícola essencialmente brasileiro, o que cada vinhateiro faz é adaptar o vinhedo à sua terra, e as suas técnicas de produção.

Além disso, sem dúvida nossa principal dificuldade na produção de vinhos artesanais e naturais no Brasil é a burocracia e falta de legislação específica para os pequenos produtores.

Ao contrário do que todo mundo fala, para mim o movimento do vinho natural não é moda, ele veio com força e vai ficar. No Brasil aos poucos começa a existir uma valorização dos vinhateiros artesões. Temos orgulho de contar com a maior feira de vinho natural, orgânico e biodinâmico da América Latina, a Naturebas. Também vejo  esse movimento crescente em todo o mundo. As pessoas não querem mais beber vinho “coca-cola”. Querem beber a poesia da terra.

O vinhateiro que é minha grande referência é Stefano Bellotti – mas o estranho é que a primeira vez que bebi um vinho natural, foi um vinho que eu mesmo elaborei. Elaborei de forma totalmente despretensiosa, e vi que aquilo era vinho de verdade.

Vinhos de verdade são vinhos naturais, e o vinho natural é mais saudável para a terra, para o homem, para o planeta. Para o vinhateiro e para o bebedor. No momento que nos aproximamos da terra ela nos guia e nos ensina tudo. Tudo é uma troca e temos que tratar bem a terra, pois assim ela nos dará bons frutos, e bons vinhos.” 

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